O HOMEM QUE CAVAVA

Após longa jornada eles chegaram à terra dos pinheiros. À princípio ressabiados, como todo mineiro há de ser. Aos poucos foram encarando as incertezas e começando a nova vida.

Destes dois, sobre os quais falaremos nesta estória, há que se saber apenas que vieram lá das longínquas Minas Gerais. Ele será por nós conhecido como "ele", ela será referida por "ela" e usaremos "eles" quando quisermos designar o casal.

Passou-se um outono e um inverno e eles ainda se achavam fora de lugar. Esse era um mundo que não era o deles, não havia queijo minas, as comidas eram diferentes, as frutas eram diferentes, os costumes estranhos, as pessoas esquisitas. Porém estranheza e esquisitêz não eram suficientes para detê-los. Eles foram dando pequenos passos e encontrando os caminhos, assim como faziam nas trilhas e cavernas pelo interior das Minas Gerais.

O trabalho sempre foi duro, mas trazia suas recompensas. Havia também muitos momentos de lazer. Aos poucos eles foram conquistando novos amigos e assim tudo ajudava a compensar a saudades de casa.

Um dia eles compraram a velha casa. Situada em uma localização privilegiada a casa precisava de muitos reparos. Reparos e melhorias era o que eles tinham em mente e quem sabe, um dia, tudo correndo bem, vendê-la e voltar pra Minas, comprar aquele lote sonhado na Serra do Cipó e abrir a pousada com vista para o Pico do Breu.

Eles sonhavam com as verdejantes montanhas, as águas cristalinas e calmas do regato que, de repente, selvagemente, se lançam numa cascata só para reencontrar a paz na lagoa lá embaixo. A porta da cozinha aberta, a chaminé do fogão de lenha, o cheiro da comida enfeitiçando, o passarinho cantando no alto da jabuticabeira. Ah! a vida tranquila que um dia teremos lá aos pés do Pico do Breu.

Na perseguição aos nossos sonhos não reparamos que quando realizamos um sonho, a realidade que temos em nossas mãos nunca é mais linda que um sonho. Há que se ter muitos sonhos pois assim, quando alguns tornam-se realidades, ainda sobrem outros para serem sonhados. Mas já basta! Aqui não se fará mais filosofia barata nem se falará mais sobre nossos sonhos. Aqui falaremos somente sobre os sonhos e a vida daquele homem... que um dia cavará.

Com muito afinco eles trabalhavam reparando e melhorando a casa. O porão tinha que ser rebaixado para acomodar a ampliação que desejavam, aqui tem lugar para mais um banheiro e quarto. E foi ali que tudo começou! Primeiro a britadeira para quebrar a camada de concreto do chão, então a pá e a picareta começaram a golpear a terra.

Por certa inexplicável razão, somos presenteados com certos dons e habilidades, a cada homem seus diferentes dons; a este homem foi-lhe presenteado a arte da cavação, à qual ele se dedica e aprimora a cada dia que passa.

Quando parecia que tudo que havia pra ser cavado já havia sido, ele não parou! Agora ele cavava na direçao horizontal, ampliando o porão, logo já passando além do limite da casa.

Ela, que o tinha conhecido bem jovem, nunca havia notado nada de estranho em seu comportamento, mesmo quando eles exploravam as cavernas. No começo ela ficou assustada, mas com o passar dos dias, percebeu que nada havia de errado com ele, a não ser que ele não parava de cavar, e se isso o fazia feliz, feliz ela também estaria.

Mas ela não sabia que ele, lá em baixo, na sua cavação descontrolada, estava passando por algumas mudanças. Começou experimentando algumas raízes que encontrava. Algumas eram amargas mas outras muito boas. E já as comia, mesmo que tivesse um pouco de terra porque a terra até temperava um pouco as raízes.

Às vezes ele largava as ferramentas e cavava com as próprias mãos, jogando a terra para trás, assim como fazem os animais que cavam suas tocas. Numa destas vezes, uma pobre minhoca veio parar em suas mãos. Sem muito refletir ele apanhou a minhoca e num único e rápido movimento introduziu-a em sua boca, nem mastigou, sugou-a como se fosse um espaguetti engolindo-a. Assustou-se, olhou para os lados, não tinha ninguém ali olhando, como isso foi acontecer? Surpreendeu-se por não sentir nojo ou gosto ruim, pelo contrário, era bom! Aqui não se contará mais sobre isso, não será falado se ele continuou ou não a comer minhocas posto que esse assunto pode contrariar alguns estômagos mais delicados. Apenas se saberá que a partir deste episódio ele parou de repetir o prato no jantar.

Ele começou a ter um pesadelo recorrente, via-se preso num tunel, com pouco espaço pra se mover, mas, aos poucos, com suas mãos, que na verdade não são mais mãos mas sim enxadas com longas garras, ele cava, cava, cava, até que sai à superfície e então acorda. E não está assustado mas sim frustrado, querendo voltar ao pesadelo.

As refeições era feitas no porão. Ela tinha que levar o prato lá pra baixo; após algum tempo decidiram levar a mesa de jantar para baixo. A seguir veio a TV e o sofá. Bem pouco tempo ele passava na superfície, até seu querido jardim ficou um pouco descuidado.

Agora as visitas já sabiam que iriam encontrá-lo no porão. Às vezes conseguiam convencê-lo a subir, às vezes tinham que ficar por lá mesmo. E ele mostrava com satisfação a coleção de pedras e raízes (as que ele não gostava de comer) que havia encontrado durante as escavações.

Os amigos brincavam, comparando-o com tatus, toupeiras, marmotas e outros animais que vivem em buracos e cavam suas tocas. No fundo ele gostava, ele sentia muita admiração por esses animais que cavam.

Quando ele estava fora do porão ainda mantinham o romantismo de sempre. Nas lindas noites ainda deslumbravam-se com a lua e gostavam do barulho do vento batendo nos pinheiros. Mas olhando as crateras da lua, ele não conseguia deixar de imaginar que incríveis seres de outros planetas ou outras galáxias teriam cavados tão enormes buracos que podiam ser vistos de tão longe.

A vida continuava boa para eles e os sonhos e planos não mudaram, pelo menos não até aquele dia cinzento no meio do outono de que falaremos a seguir.

Aquele outono foi mais chuvoso do que o normal, tornando a terra ensopada e pesada. Aquela tarde de domingo parecia como outra tarde chuvosa qualquer, mas não era: a garagem da casa do vizinho foi a primeira a despencar no buraco. Ouvindo o barulho ele olhou na janela e no mesmo instante entendeu o que tinha acontecido.

Ele é um homem bom e honesto e já estava pronto pra contar a verdade pro vizinho, quando o terreno entre sua casa e a do vizinho também desmoronou. A polícia foi chamada e ele, mineiro que é, ficou "na moita". Naquela noite ele ainda cavou, mas na direção contrária à casa do vizinho, enquanto pensava no que fazer.

Ele não teve muito tempo pra pensar, a casa deles despencou no dia seguinte, felizmente enquanto eles estavam fora, trabalhando, e tudo parecia perdido!

O agente do seguro ficou intrigado, começou a investigar e não conseguia imaginar como um buraco tão grande havia se formado sob a casa. Um geólogo foi chamado para uma análise do terreno. A destruição foi tamanha, que não se via sinais de que ali alguém havia cavado, o buraco foi todo tomado pelos escombros da casa.

Ele chorava, ela tentava consolá-lo dizendo que o seguro pagaria o prejuízo, mas ele não chorava pela casa perdida mas sim pelo buraco. Isso ele não dizia, mas não precisava dizer porque ela já o sabia. Mas ali não se falavam sobre buracos, não na frente do agente do seguro.

No outro dia, há muitos kilômetros dali, lá nas montanhas das Minas Gerais, um acontecimento, que estranhamente pode estar conectado ao que aqui se passa, espantava a população e autoridades civis e eclesiásticas. Durante a noite todos os anjos sumiram das igrejas: anjos de madeira, de pedra sabão, de mármore, de gesso, até mesmo os pintados nas paredes ou quadros. Todos eles sumiram! A polícia, embasbacada, não sabia onde começar a busca. Parte da população dizia que foi obra do diabo, outra parte achava que os padres haviam vendido os anjos.

Os padres rezavam, as beatas rezavam, os ateus pensavam em começar a rezar. As procissões se multiplicavam pelas estreitas ruas de pedras nas pequenas cidades das Minas Gerais. O povo exigia alguma providência e os políticos diziam que só se poderia esperar por alguma providência divina já que, ao que parece, o acontecimento teria sido provocado ou por Deus ou pelo diabo.

Alguns viam um sinal do apocalipse: o mundo estava para acabar, há pecadores em demasia, ninguém mais vai à missa, os jovens não têm mais vergonha, os comunistas continuam comendo criancinhas; todos vocês merecem esta puniçao, mas Deus me guarde porque sempre levei uma vida cristã! Outros, os descrentes, não encontravam explicações lógicas e teimosamente viam ruir toda suas convicções, ou a falta delas e, por via das dúvidas, já começavam a aprender o Padre Nosso e a Ave Maria.

Mas o fato é que o geólogo não encontrou explicação para o buraco e o seguro resolveu pagar pela casa.

No outro dia, misteriosamente todos os anjos reapareceram nas igrejas das Minas Gerais e o mundo voltou a ser o que era. As pessoas voltaram ao normal: o padre às suas missas, as beatas às suas fofocas, o ateu à sua falta de fé. Esqueceu-se o que foi visto, nunca mais se falou no acontecido, os pais não contarão essa história para seus filhos. O mistério dos anjos desaparecidos se apagará por completo do conhecimento coletivo.

Já faz algum tempo que eles estão de volta à terra natal que tanto lhes fazia falta. Nem tudo correu como o planejado, mas com o dinheiro do seguro e mais o da venda do terreno eles montaram a sonhada pousada com vista para o Pico do Breu.

Ainda na semana passada recebi um email dela contando da felicidade, da vida tranquila, da natureza, da horta, da pousada. O email terminava assim: "...em geral tudo vai bem com a gente, apenas tivemos um problema com um dos chalés que despencou por causa de um enorme buraco que havia debaixo dele."

Chamem os anjos!

Janeiro de 2005

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