SOBRE PARALELAS E PERPENDICULARES
Lá nas tropicais terras de Iracema onde a pele é morena e os homens
são viris, vez por outra surge,
por um engano ou por um capricho das forças que regem este mundo, um ser fora de lugar,
que não será viril e cuja pele não será tão morena. Tais forças, tal como deuses gregos,
parecem brincar com os pobres homens pois já sabem que este ser
não terá vez no ambiente de machismo herdado por gerações que se perdem no tempo, que ele terá
como únicas certezas o desprezo e a repressão.
Pobre Judicael, crescendo numa sociedade que apenas o abominava, mendigando farelos de
amizade, restos de atenção, párea entre os homens de sua sociedade, sobreviveu com muitos
percalços sua juventude, esta que já vai indo mas que não leva consigo a humilhação e
frustração que parecem ser suas eternas e únicas companheiras.
Paralela a esta estória, vai a de Modelito, que cresceu cercada dos confortos de sua
casta social. Mesmo sendo independente e inteligente nunca se dispôs a abrir mão das
regalias que a sociedade patriarcal, a qual desprezava, lhe proporcionava. Mulher
bonita e moderna, bem relacionada na sociedade, bem posicionada financeiramente e
profissionalmente, não tinha escrúpulos em tirar proveito de sua posição quando assim
lhe fosse conveniente.
Ainda numa outra estória paralela, vai a do Guto, supernutrido pela boa vida que
sempre teve, criado numa sociedade que, se não explicitamente, também tem sua dose
de machismo enrustido. Não sabe o que é humilhação, frustação ou desprezo, teve sorte
de ter crescido sem ter que se preocupar com isso.
Completa antítese numa terra de morenos subnutridos, Guto, caído de um avião vindo
lá das terras ricas do sul, procurando divertir-se num mundo que não é o dele,
buscando em terras alheias os prazeres que não encontra nas próprias terras,
vai completamente absorto aos desígnios malignos do destino.
Afinal até então nunca tivera maiores preocupações na vida a não ser a de levar
sua roupa suja para a mãe lavar durante o fim de semana.
Nem tudo o que é paralelo neste mundo há de se tornar perpendicular, mas nesta pequena
estória as paralelas hão de encontrar-se.
Modelito e Judicael encontram-se. Eles têm, entre si, todas as diferenças que os fazem
juntar-se numa estranha combinação, mas com vantagens mútuas: a dele de ter uma amizade
invejada pelos
homens, e a dela de ter uma amizade que a divirta com suas conversas e que não cause
os desagradáveis inconvenientes, quando não se quer, de uma atração sexual.
Modelito não faz idéia do que foi a vida de Judicael, ele nunca contou. Nem uma palavra
sobre seus sofrimentos, nem uma palavra sobre como cresceu sendo deixado de lado
pelas outras pessoas, suas palavras eram as palavras que satisfaziam Modelito. Falavam
sobre outras pessoas, política, moda, mas nada sobre ele próprio, não, esta seria
outra humilhação para a qual ele não estava pronto.
Modelito e Guto encontram-se. A bela Modelito sente-se atraída pelo estranho e enorme
nórdico que promete ser uma aventura, Guto encontra na bela morena aquilo que veio
buscar nestas terras longínquas. A combinação prova-se completa.
Providencialmente a frugalidade fornece seu colchão feito sob medida para abrigar este
relacionamento.
Parece que tudo corre a seu termo, parece que a geometria está a colaborar deixando
que estas paralelas se encontrem para que depois de algum tempo voltem a ser o que deveriam
ser: paralelas.
Mas, no momento em que Guto deixou de ser paralelo à Modelito, tambem deixou de ser
paralelo à Judicael. E é aí que acontece o encontroo final das paralelas desta
estória.
Judicael sente-se deixado de lado, não porque ele deseja Modelito, nunca a desejou,
mas por causa de um estranho ciúmes que o atormenta. Ele não luta para compreender,
não é um guerreiro, nunca lutou em toda sua vida, sempre se entregou. Na sua falta
de compreensão encontrou o desejo ao qual se entregou; ele deseja o desejo de Modelito,
ele também deseja o Guto!
Mais que isso, ele quer mostrar pra Modelito que ele deseja o Guto. E ele o faz
isso da maneira mais direta que encontra: perguntando diretamente à sua, agora,
rival, Modelito e na frente do seu, agora, objeto de desejo, Guto, coisas que só
se pode saber os que são amantes.
Modelito não percebe o que se passa, nem poderia, sua vida sempre foi o que ela gostaria
que fosse. Ela não sabe disso, mas ela não entende Judicael. Ela pensa que sabe tudo
o que se passa em sua volta, mas só consegue captar o que está na superfície, não
consegue enxergar o que se vai lá pelas profundezas onde estão os sentimentos humanos.
Como tudo em sua vida as perguntas de Judicael só tiveram o poder de divertí-la.
Guto também não entende, finge divertir-se e faz de tudo para não prestar atenção ao
episódio. Mas o Guto não é tão fugaz assim. Lá no fundo de seu machismo enrustido,
naquele terreno virgem nunca antes tocado, ele percebe que alguma coisa não está bem,
tem algo que o incomoda, a sua boa vida não o preparou para isso.
Os ponteiros dos relógios, estes sim fidedignos, trataram de desfazer as paralelas
desta estória. Melhor assim, agora podemos deixar de lado a geometria e nos concentrar
na vida dos personagens.
Guto, assim como chegou partiu, sem deixar mais do que fundas pegadas nas brancas
areias que em breve as ondas encarregaram-se de desfazer. Modelito segue sua vida,
sem pensar no que acontece há mais de 5 metros ao seu redor, aumentando o vazio que
existe entre ela e as outras pessoas. E Judicael, que não conseguiu mais manter a
amizade com Modelito, continua sua procura por alguém que venha compensar toda uma
vida de frustrações.
Se os cruzamentos desta estória não mudaram muito as vidas de Judicael e Modelito,
que continuam suas vidas, respectivamente sofrida e superficial, o mesmo não se deu
com Guto.
Mesmo sem entendê-lo completamente, e talvez precisamente por isso, no correr dos anos
Guto vê-se incapaz de eclipsar este episódio de sua memória. Ele tenta convencer-se
que isso não tenha acontecido com ele. Ele tenta fazer de conta que tudo não passou
de um jogo, de brincadeiras. Mas ele é mais inteligente do que pensa e, por mais
argumentos que invente, não consegue convencer-se.
A verdade é que lá nas terras de José de Alencar, num dia quente da primavera, quando
a brisa aspergia seu manto fresco sobre a pele cor-de-rosa de um enorme e pálido Guto,
um pequeno desconforto criou-se em sua vida e hoje ele tem que viver com isso.
Agosto de 2004
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